JOANA MARTINS

Pediatra

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COMO EU COMECEI

Tudo começa com uma ambição. E eu, na verdade, queria mesmo ser útil. Ter aquela sensação de arregaçar as mangas e estar do lado da resolução dos problemas. Daí até ter ido para medicina e depois para pediatria foi uma questão mais ou menos aritmética.
Fiz o meu internato médico - o treino para ser pediatra, no Hospital Prof. Fernando Fonseca no período entre 2009 e 2014. Depois, rumei até ao Hospital Divino Espírito Santo em Ponta Delgada, numa aventura enorme que me trouxe tantas e tantas coisas boas. Por fim, de regresso a casa - Lisboa, comecei a minha jornada num hospital exclusivamente pediátrico, antigo, com muitos aspectos desafiantes. Foi no Hospital D. Estefânia que acabei por ficar, primeiro no Serviço de urgência, depois, na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos. 
E agora? Bem, agora quero ter um espaço de abertura e diálogo com crianças e pais. Quero fazer o percurso inverso: do complexo e artificial mundo dos soros, medicamentos e ventiladores, para o mundo da criança , com direito a não usar bata, sentar-me a brincar no chão e ensinar aquilo que sei, como pediatra e como mãe. Sim, porque esta aventura não está completa sem eu explicar que sou mãe de dois, o Sebastião e o Baltazar. E quantas vezes colidi entre ser pediatra e ser mãe? na verdade, todos os dias. Numa dança meio esquizofrénica que é a vida de uma mãe trabalhadora...Por isso, estou aqui deste lado. 
Para tentar ajudar. Claro!

 
 

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  • Joana83jm .

A propósito do Babywearing

Como pediatra tinha uma noção um pouco rudimentar dos métodos de transporte de bebés. Tinha a noção simplificadora que o mais importante de tudo – e não me interpretem mal, continua a ser um aspecto da maior importância – seria o sistema de segurança para o transporte no automóvel.No entanto, há muito para dizer sobre os métodos de transporte para bebés: Babywearing? Slings? Meh Dais? Marsúpios? Mochilas?


Nos dias de hoje, em que o ritmo de vida é mais rápido, que se faz a ode ao multi-tasking, consigo compreender perfeitamente a beleza de um sistema de transporte que permita que o adulto cuidador fique com as mãos livres. O Babywearing (ou o acto de “vestir” o bebé) parece prático e funcional, sobretudo nas grandes cidades em que as acessibilidades não são as melhores e que os passeios são frequentemente estreitos, ou ocupados, e não permitem a passagem de um carrinho de bebé.


Por outro lado, o facto dos transportadores (assim designados de forma genérica, já abordarei os diferentes tipos) serem uma espécie de colo sem braços, tem algumas hipotéticas vantagens: os bebés estão junto da mãe (ou outro cuidador), sentem-se mais seguros, mais apoiados e como tal mais calmos. Pode ser uma excelente estratégia para bebés mais irritados, que requerem mais colo. E há benefícios francos do colo na neuromodulação. Também pode ser uma forma bastante simples de garantir o sucesso da amamentação: quanto maior a proximidade entre a mãe e o bebé, mais oxitocina circula e mais fácil é amamentar.


Outro aspecto que não posso deixar de referir é a questão de posição dos membros inferiores: idealmente, num transportador, o bebé deverá ficar na posição de jockey, em que a anca e os membros inferiores desenham um M. Esta posição é bastante advogada para a terapêutica da doença congénita da anca (DCA): bebés com DCA são frequentemente colocados em imobilizadores de gesso que recriam exactamente esta posição, mas de forma rígida. Sabemos que em sociedades em que é pratica comum o transporte de bebés em panos, a incidência de DCA é bastante baixa. Se é pelos panos, se é pela genética, aqui temos uma questão relevante. Porque realmente, apesar deste suposto benefício, não existem estudos científicos que o comprovem.


Então vamos lá por partes, que tipo de transportadores temos disponíveis? Existe alguma evidência científica do uso de um tipo de transportador em detrimento de outro?

Temos disponíveis wraps, slings tradicionais, slings de argolas, Meh Dais, transportadores semi-estruturados e transportadores estruturados ou marsúpios.





Até este ponto do texto, a opção de praticar babywearing parece ser uma questão puramente opcional: irá depender da vontade dos pais em explorarem estes métodos de transporte. Há benefícios hipotéticos – maior vinculação, maior facilidade na amamentação, redução do choro do bebé - tendo em conta as características do transporte, mas estes benefícios não têm sido comprovados claramente de forma científica com números razoáveis de crianças.


No entanto, o que surge na literatura científica sobre o assunto é um bocadinho diferente: se pesquisarmos a expressão Babywearing na PubMed (a maior base de dados de artigos científicos disponível online), vamos perceber que surge uma enorme quantidade de relatos de casos de asfixia associados ao uso destes métodos de transporte. E o risco de asfixia prende-se com 2 aspectos: a posição em flexão da cabeça do bebé, sobretudo nos bebés que não controlam a cabeça (menos de 3 meses) e o risco de oclusão da face.

Na literatura científica sobre o tema, o que parece ser mais relevante é a questão da segurança: segurança contra acidentes – quedas da mãe, por exemplo, que podem levar a lesões no bebé (o mesmo aconteceria se o bebé estivesse simplesmente ao colo) e segurança no que toca ao risco de asfixia.


O que a literatura científica sobre o assunto revela são sobretudo relatos de casos de asfixia associados ao uso destes dispositivos de transporte. Daí que a tónica sobre slings, marsúpios, não seja propriamente o dispositivo ou modalidade de transporte escolhida, mas sobretudo as regras de segurança para o fazer.


Os risco de asfixia tem duas origens bem definidas: o posicionamento em flexão, que se prende com o facto do bebé mais pequenino não ter força para segurar a sua cabeça e poder ficar com o pescoço dobrado e como tal bloquear a via aérea; a oclusão da via aérea pelo mecanismo de transporte em si: quer porque o bebé está excessivamente reclinado ou porque tem algum obstáculo junto da face a acaba por tapar o nariz e a boca.


Regras de segurança que terá que ter em conta:


1. Tem que ser justo

O transportador tem que ser justo de tal forma que o bebé esteja contido de encontro ao corpo do adulto. Se não estiver justo, o bebé vai escorregar e encaracolar, levando à tal postura em flexão que falei e podendo comprometer a ventilação.


2. Sempre à vista

Isto significa que a face do bebé tem que estar visível SEMPRE quando se olha para baixo. Nada pode ocluir a face!


3. À distância de um beijinho

O bebé tem que ser transportado o mais direitinho e para cima possível, de tal forma que seja possível dar um beijinho do cucuruto da cabeça sempre que quiser!


4. Afastar o queixo do peito

O bebé tem que estar com a cabeça alinhada, com o queixo livre e afastado do peito e com a face visível.


5. Apoio para as costas

Os bebés têm que estar suportados de forma a que as costas estejam devidamente apoiadas e direitas. Nada de bebés encaracolados e com a carinha para baixo.


No transportador, no wrap, no sling de argolas, a posição mais adequada é estar naturalmente sentado e bem justo junto a si.


Se o seu transportador de bebé não cumpre estas regas, então, pense sinceramente em escolher outro tipo de transportador.


No entanto, independentemente do tipo de meio de transporte que escolha, há algumas precauções universais:

Sempre que se baixar, não deixe de apoiar a cabeça do bebé, por muito justinho que ele esteja, a cabeça num bebé é extremamente pesada e tem que ser apoiada.

Cuidado com comer e beber alimentos quentes com um bebé ao colo. Podem ocorrer queimaduras graves com o derramamento de alimentos sobre o bebé.

Cuidado com fornos e ferros de engomar: como não tem a percepção do calor quando usa um bebé à frente, tenha especial cuidado. Passar a ferro está fortemente desaconselhado.

Não corra ou salte com o bebé, já que pode causar lesões, sobretudo nos bebés mais pequeninos. Cuidado com as portas, porque frequentemente há acidentes com as ombreiras. Quando descer escadas com o bebé, tenha particular cuidado e prefira usar sempre o corrimão. Todos os cuidados são poucos.

Por fim, independentemente dos cuidados de segurança acrescidos, o que temos que ter bem presente é que, independentemente das escolhas dos pais ou cuidadores, há SEMPRE cuidados de segurança a ter. Prova disso são os acidentes que ocorrem nos berços, nas cadeiras auto ou mesmo nos carrinhos de passeio.


Sobretudo, mais importante que escolher fazer babywearing é escolher algo com o qual se sinta confortável. Seja babywearing, seja carrinho com alcofa, seja colo tradicional. Desde que o bebé esteja em segurança, está tudo bem.


Mesmo dentro do babywearing, há um sério preconceito contra os marsúpios tradicionais, quando na verdade, o que existem são métodos de transporte mais livres, como os panos ou o sling de argolas e métodos mais organizados, como os meh dais, os transportadores semi-estruturados e os marsúpios. Desde que a posição do bebé seja correcta e que cumpra as regras de segurança, pouco importa se é pano ou marsúpio. Por isso, o mais importante mesmo é experimentar: experimentar o babywearing, experimentar os diversos modelos e perceber se cumprem ou não os critérios de segurança.


Só isso. Sem complicar.

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