• Joana Martins

O que ainda não sabemos sobre o SARS-CoV 2

Atualizado: Jan 17


Na última semana, a Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos do Reino Unido, emitiu um comunicado dirigido a todos os médicos generalistas, a salientar a importância de referenciação célere de doentes pediátricos com dor abdominal ou outros sintomas gastro-intestinais, como vómitos ou diarreia, por risco de se tratar de uma complicação grave embora rara da infecção ao vírus SARS-CoV 2.

Mediante esta situação absolutamente nova, o que poderemos explicar? Na população adulta, o grande foco de atenção diagnóstica foi dirigido para a sintomatologia respiratória, pelo risco de desenvolvimento de um quadro agudo muito grave que se chama Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda. Esta seria a principal causa de mortalidade no doente adulto e motivou, como tal, o colapso dos cuidados intensivos (a velha questão do número de ventiladores disponíveis) em Itália e Espanha. A realidade chinesa é em tudo vaga e os relatos científicos que vamos tendo acesso levantam mais dúvidas do que dão respostas. No entanto, na população adulta, sempre houve uma franja de doentes graves que não apresentavam o Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda. Estes doentes, com enorme risco de mortalidade, apresentaram uma resposta imunitária desregulada em resposta ao vírus SARS-CoV 2. Esta resposta imunitária desregulada, ou de hiperinflamação sistémica pode apresentar-se sobre a forma de Síndrome Hemofagocítico secundário à infecção viral ou sobre a forma de Síndrome de Libertação de Citocinas. Quer uma apresentação, quer outra, tem marcadores laboratoriais específicos e ambas carecem de um tratamento imunomodelador agressivo. Ou seja, tentando explicar de forma simples o que se passa: a infecção pelo vírus SARS-CoV 2 parece activar o sistema imunitário humano de uma forma tão intensa que desencadeia uma resposta que, se inicialmente teria como objectivo ser protectora, acaba por ser muito adversa para o próprio doente, gerando mais lesão (pulmonar, renal, cardíaca e vascular) e que, se não for activamente travada pode, por si só, ser letal. Já sabíamos que o desenvolvimento de um síndrome hiperinflamatório era raro, mas acontecia nos adultos. E estranhamente, achávamos que, as crianças, por terem um sistema imunitário menos capaz de desencadear uma tempestade imunológica, seriam poupadas desta evolução grave. E de facto, na esmagadora maioria dos casos, são-no! O que o comunicado da Sociedade de Cuidados Intensivos Pediátricos veio alertar foi para a realidade da existência deste síndrome hiperinflamatório também na população pediátrica. Qual a real incidência deste síndrome nas crianças? Não sabemos. Se nos guiarmos pela experiência chinesa, numa longa série de 2143 casos pediátricos entre Dezembro de 2019 e Fevereiro de 2020, apenas 0,6% (13 doentes) precisaram de cuidados intensivos. No entanto, o motivo que está por detrás da admissão, se foram admitidos por colapso respiratório ou por síndrome hiperinflamatório, não está devidamente explicitado. Assim, tentando resumir esta informação: que existem doentes pediátricos graves, com um síndrome hiperinflamatório que parece ser muito semelhante a uma vasculite designada Doença de Kawasaki, SIM, é verdade. Que embora existam relatos destas crianças, continua a ser uma complicação rara, Sim, é verdade. Seguramente que, no decorrer a pandemia ficaremos a saber muito mais sobre estes doentes, sobretudo com informação proveniente de países como a Espanha ou o Reino Unido, que não implementaram o confinamento total tão precoce como nós e que, como tal, vão abrindo caminho ao conhecimento científico que é útil a todos. E, ao contrário da China, disponibiliza,-no!

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