JOANA MARTINS

Pediatra

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COMO EU COMECEI

Tudo começa com uma ambição. E eu, na verdade, queria mesmo ser útil. Ter aquela sensação de arregaçar as mangas e estar do lado da resolução dos problemas. Daí até ter ido para medicina e depois para pediatria foi uma questão mais ou menos aritmética.
Fiz o meu internato médico - o treino para ser pediatra, no Hospital Prof. Fernando Fonseca no período entre 2009 e 2014. Depois, rumei até ao Hospital Divino Espírito Santo em Ponta Delgada, numa aventura enorme que me trouxe tantas e tantas coisas boas. Por fim, de regresso a casa - Lisboa, comecei a minha jornada num hospital exclusivamente pediátrico, antigo, com muitos aspectos desafiantes. Foi no Hospital D. Estefânia que acabei por ficar, primeiro no Serviço de urgência, depois, na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos. 
E agora? Bem, agora quero ter um espaço de abertura e diálogo com crianças e pais. Quero fazer o percurso inverso: do complexo e artificial mundo dos soros, medicamentos e ventiladores, para o mundo da criança , com direito a não usar bata, sentar-me a brincar no chão e ensinar aquilo que sei, como pediatra e como mãe. Sim, porque esta aventura não está completa sem eu explicar que sou mãe de dois, o Sebastião e o Baltazar. E quantas vezes colidi entre ser pediatra e ser mãe? na verdade, todos os dias. Numa dança meio esquizofrénica que é a vida de uma mãe trabalhadora...Por isso, estou aqui deste lado. 
Para tentar ajudar. Claro!

 
 

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  • Joana83jm .

Sobre causas que não são agenda política porque na verdade, são direitos humanos.

Atualizado: Jul 3




Foi com uma enorme sensação de desconforto que li esta notícia no Expresso. Para quem não quiser ler directamente, passo a resumir: um estudo do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e coordenado pelo Prof. Ana Cristina Santos , releva que 81% dos profissionais de saúde e 73% dos profissionais de educação não se sentem preparados para encaminhar, orientar, ajudar crianças e jovens LGBTI+ a sigla que representa lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, intersexo e outras orientações.

Também eu faço parte destes 81% dos profissionais de saúde sem formação específica para lidar com a autoafirmação sexual (género e orientação sexual) das crianças e jovens e dos 40% de profissionais que, neste momento, face às constantes remodelações e desmantelamentos de equipas nos diferentes serviços, não sabe encaminhar devidamente as situações.

O estudo citado põe a nu a enorme vulnerabilidade de um grupo de crianças e jovens, que não sendo maioritário, não deixa de existir. Imaginem a desconfiança com que encaram o sistema de saúde. E não é a saúde um direito humano?


Vou dar-vos um exemplo, em 2010 tive pela primeira vez na consulta de pediatria geral do hospital onde trabalhava, um adolescente de 16 anos que pretendia perceber se tinha alguma anomalia genética ou hormonal que pudesse justificar o facto de se identificar como mulher.

Nunca me esquecerei do sofrimento desta adolescente e dos esforços que fazia para esconder a barba, os pêlos torácicos e a maçã de Adão. E sobretudo nunca irei esquecer a sua mãe, incrível em todos os aspectos. Não, não era uma intelectual liberal ou qualquer coisa que imaginem. Empregada doméstica, católica de uma fé simples mas inabalável, baixinha, roliça, com umas mãos muito calejadas e unhas estragadas de tantos detergentes, mas com um olhar direito e um optimismo inquebrável.

Se tiver de escolher entre o amor à cruz de Cristo e a filha, disse-me ela, escolho a minha filha. “A meu ver, escolhe bem”, respondi eu, pequenina na minha ignorância e no meu preconceito. À data e após ter feito os testes genéticos e hormonais solicitados tive que procurar especificamente o local apropriado de referenciação e, deixem que vos diga, não foi assim tão fácil quanto isso. E eu sei bem que o Sistema Nacional de Saúde nem sempre tem resposta para tudo, o tempo todo, no entanto, nesta situação, estava perante uma enorme vulnerabilidade.

E reparem, estávamos bem antes da Lei de Autodeterminação Sexual que foi tão debatida por assuntos supérfluos, como o uso de casas de banho ou fardas escolares, deixando de fora as discussões verdadeiramente relevantes, como a necessidade de criar equipas para acompanhar todas as crianças e jovens que o solicitem. Estas crianças e jovens existem. Não são invenção, nem uma agenda política, nem uma bandeira, por muito colorida que seja. Há uma enorme fragilidade na acessibilidade aos cuidados de saúde, ainda para mais prestados por profissionais de saúde, que, na maioria das vezes – e eu incluída – não está devidamente informada para prestar esclarecimentos úteis e acompanhar para os centros correctos.

Por isso, espero que o estudo Diversity and Childhood tenha bons frutos e que possamos todos aprender e melhorar. Porque não falamos de direitos LGBTI+, falamos de direitos humanos.









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