• Joana83jm .

Tenho um filho adolescente que não quer falar comigo e agora ?

por Rute Henriques, psicóloga clínica.






Quantos de nós sentimos que, de repente, a criança amorosa e dependente que até há poucos dias cabia no colo, transforma-se num adolescente que parece só querer distância dos pais e das suas opiniões?

Na maioria das situações isso não corresponde totalmente à verdade. Corresponde sim à perspetiva que os pais adotam de uma situação que lhes causa desconforto. Do ponto de vista do adolescente, a perspetiva é outra: eles é que não se sentem ouvidos e compreendidos pelos adultos.

E agora? Como gerir esta falha de comunicação e de pontos de vista tão opostos?

Antes de mais, tenho a certeza de que a vossa intenção enquanto pais é a melhor, mas, e o vosso comportamento, espelha essa intenção?

Um dos condicionantes é podermos pensar na nossa própria adolescência. Todos sabemos que este período nos remete para sentimentos de dúvidas, medos, angústias, frustrações e experiências embaraçosas que ficaram no passado. E qual o pai ou mãe que não quer proteger o seu adolescente destes sentimentos mais negativos?

Mas lamento dizer-vos, tal não é possível.

Outro aspeto a considerar é que ter um filho adolescente, sedento de liberdade e de crescimento, lembra-nos que os filhos não são nossos, e isso é uma realidade bem difícil de lidar.

Quando um casal decide ter um filho, a criança passa a ser o centro do mundo, passa a ocupar grande parte do tempo e do espaço afetivo que antes cabia apenas ao casal. Ora isto também tem o reverso. Durante os primeiros anos da vida da criança, os pais e o ambiente familiar são o centro do seu mundo: vivem estes anos a depender, a procurar e contar com a presença e apoio dos pais. Afinal, os pais sabem tudo, certo?

Mas depois chega a adolescência… e por volta dos 12 anos (idade aproximada), o adolescente descobre a existência de um mundo externo e novo que necessita de ser explorado.

O núcleo familiar continua a ser importante, mas passa a ser visto de outra maneira. Os pais perdem as competências e capacidades que os tornaram os melhores pais do mundo até então e são colocados de lado, em certos casos até de uma forma demasiado … intensa.

Este comportamento desafiador do adolescente é fundamental: é basicamente a maneira que o cérebro arranjou de lhe dar o impulso para se separar da validação e segurança das figuras parentais, de modo a poder encontrar a sua independência e crescimento.

É possível que neste processo de crescimento dos adolescentes, os pais se sintam excluídos. Habituados a ser necessários e fundamentais, quando deixam de o ser, é difícil aceitar. Bem como é difícil de aceitar e entender os novos interesses, rotinas e comportamentos dos filhos.

É um período tão desafiador e diferente de tudo o que foi vivido até então que, pelas suas características, é muitas vezes apelidado de “idade do armário”: os adolescentes ficam lá dentro e espera-se que quando a porta finalmente se abra esta fase esteja ultrapassada!!!!

Perante um filho adolescente, os pais podem adotar vários comportamentos, mas há alguns que devem ser evitados. Um deles é a limitação da liberdade: “não sais à noite porque não quero”; outro é o uso excessivo do poder parental “enquanto viveres nesta casa quem manda sou eu”; por último, mas não menos importante, a demissão do poder parental “faz o que quiseres”.

Qualquer um destes comportamentos, vai aumentar a distância, quer física quer relacional e emocional, entre os pais e os filhos adolescentes.

E quanto mais distantes estiverem, maior a probabilidade de os filhos se sentirem incompreendidos e menor a probabilidade dos pais poderem exercer as funções parentais vitais: acolher, aconselhar e orientar.

Ser pai ou mãe de filhos adolescentes é permanecer presente, mas dando espaço, confiar sem ser permissivo, amar sem sufocar, existir, de preferência sob o manto da invisibilidade do Harry Potter.

Ser um porto de abrigo: os barcos não se querem parados no porto!


Partilho aqui alguns comportamentos que os pais podem adotar, não com o intuito de evitar viver a adolescência dos filhos, mas no sentido de melhorar a sua comunicação e de os preparar para o mundo externo:

1. Respeitar o ser humano em que se está a tornar, que pode ser diferente do que idealizaram;

2. Manter uma relação muito equilibrada entre firmeza e amor;

3. Ter uma atitude empática e que favoreça o vínculo;

4. Intercalar momentos de conversas mais formais com momento de diversão;

5. Fazer programas comuns: ouvir o disco preferido do adolescente ou ver séries e filmes que eles gostam e seguem;

6. Interessar-se pelo seu grupo de pares e promover encontros em casa (assim conseguem acompanhar tudo e perceber as diferentes dinâmicas);

7. Negociar, mas não ceder naquilo que ache importante: por exemplo não dormir em casa ou não vir jantar requer, por parte do adolescente, aviso e justificação prévia;

8. Conversar muito, para poder explicar, mas sobretudo para poder compreender.


Estamos a preparar crianças e adolescentes para um mundo num turbilhão e em constante mudança, completamente imprevisível e que não conhecemos.

Tão ou mais importantes que os conhecimentos científicos, são os valores, comportamentos e atitudes que lhes ensinarmos, que irão habilitá-los a lidar com essa nova realidade.

E lembrem-se, tudo passa.

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