JOANA MARTINS

Pediatra

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COMO EU COMECEI

Tudo começa com uma ambição. E eu, na verdade, queria mesmo ser útil. Ter aquela sensação de arregaçar as mangas e estar do lado da resolução dos problemas. Daí até ter ido para medicina e depois para pediatria foi uma questão mais ou menos aritmética.
Fiz o meu internato médico - o treino para ser pediatra, no Hospital Prof. Fernando Fonseca no período entre 2009 e 2014. Depois, rumei até ao Hospital Divino Espírito Santo em Ponta Delgada, numa aventura enorme que me trouxe tantas e tantas coisas boas. Por fim, de regresso a casa - Lisboa, comecei a minha jornada num hospital exclusivamente pediátrico, antigo, com muitos aspectos desafiantes. Foi no Hospital D. Estefânia que acabei por ficar, primeiro no Serviço de urgência, depois, na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos. 
E agora? Bem, agora quero ter um espaço de abertura e diálogo com crianças e pais. Quero fazer o percurso inverso: do complexo e artificial mundo dos soros, medicamentos e ventiladores, para o mundo da criança , com direito a não usar bata, sentar-me a brincar no chão e ensinar aquilo que sei, como pediatra e como mãe. Sim, porque esta aventura não está completa sem eu explicar que sou mãe de dois, o Sebastião e o Baltazar. E quantas vezes colidi entre ser pediatra e ser mãe? na verdade, todos os dias. Numa dança meio esquizofrénica que é a vida de uma mãe trabalhadora...Por isso, estou aqui deste lado. 
Para tentar ajudar. Claro!

 
 

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  • Joana83jm .

2020: O novo normal e 2021: O ano do absentismo



Este ano de 2020 está a ser uma absoluta e completa surpresa. A pandemia SARS-COV2 confronta-nos com o desconhecimento científico básico de um vírus completamente novo, mas sobretudo, mergulhou-nos no caos da desinformação e alarmismo.

Como profissional de saúde, não sofri na pele o confinamento. Trabalho no centro de Lisboa e não deixo de referir a estranheza de ver, em dias sucessivos, a cidade permanentemente vazia e silenciosa. Não deixou de ser uma experiência única, de uma rara beleza e encanto. No entanto, parecia haver sempre este peso do medo. Um medo enorme que engoliu a sociedade inteira.

Com a reabertura das creches e jardins infantis em Junho, os meus filhos voltaram à sua rotina. Sim, nesta fase, já estão há 3 meses na escola. O test drive das creches e infantários foi bem pensado: as crianças são pequenas, mas maioritariamente acima de 1 ano de idade e os pais são jovens e como tal, provavelmente saudáveis. Foi a estratégia de menor risco, mas compreendam, ainda assim com riscos associados.

Seria expectável que em Setembro daríamos o passo seguinte: reabrir todas as escolas. E aqui sim, teremos o real impacto da transmissão do vírus na população pediátrica. O que sabemos até agora é que não há sítios seguros. Quando me perguntam se a escola é segura, respondo que é mais segura que o supermercado, a bomba de gasolina ou a farmácia. Isto porque todos os estudos parecem apontar para o facto de contágio ser sobretudo provocado por adultos. O que nos leva à decisão seguinte: tornar as escolas santuários com poucos adultos. Ou pelo menos apenas e só os estritamente necessários. O facto dos pais não poderem entrar na escola é obviamente um factor de grande stress, sobretudo para as crianças a fazerem adaptações a novos estabelecimentos escolares. Ninguém disse que esta grande experiência social seria fácil. Não está a ser.

Outra questão extremamente importante é que a infecção por SARS-COV2 é praticamente indistinguível de uma gripe ou de uma bronquiolite numa criança com menos de 12 meses. Não existem sintomas específicos, pistas infalíveis, “truques” para identificar COVID19. O que nos deixa apenas e só com a possibilidade de realização dos testes. Para quem não foi ainda testado (que sorte!!!), o facto de se introduzir um cotonete gigante até à nuca, provocando-nos lágrimas e vómitos, é uma experiência única. E será que queremos que os nossos miúdos passem por isso?

Por isso, para mim, o ano escolar de 2020-2021 será o ANO DO ABSENTISMO, com crianças febris a serem encaminhadas ciclicamente para o isolamento, que, em caso de suspeita de COVID19, será previsivelmente de 14 dias.

Podemos olhar para isto de três formas: do ponto de vista da criança, do ponto de vista das entidades patronais e do ponto de vista dos pais.

Para os bebés e crianças em idade pré-escolar, esta situação é relativamente sustentável, já que não existe um conteúdo programático e ao fim de 14 dias, poderão integrar novamente rotinas. Para as crianças em idade escolar e adolescentes, o período de isolamento vai corresponder a um período de telescola, com afazeres, aulas à distância e estudo desacompanhado.

Para as entidades patronais vai ser um período de contante desafio. Equipas reduzidas, mudanças de última hora, teletrabalho quando possível, rastreios no ambiente de trabalho e papeis, muitos papeis…Comprovativos de incapacidade temporária, apoio à família, atestados e mais atestados.

Para os pais vai ser o caos: ginástica permanente entre escola, trabalho e casa, sob a ameaça da chamada telefónica com a previsível notícia: “o seu filho tem febre” ou “um menino na sala do seu filho tem comprovadamente COVID19”.

E que o que é que eu acho como pediatra?

Como pediatra e médica assistente de muitas famílias, tenho aconselhado, caso seja possível, as crianças mais pequenas (sobretudo os bebés em fase de término de licença de parentalidade), a ficarem em casa ao cuidado de familiares. Nem sabem a ginásticas de turnos que isto exige, com pais, avós, tios e tias à mistura. Mas este aconselhamento não vem do medo da infecção pelo SARS-COV2 em si, vem pelo medo da desorganização e do stress que significa receber estas chamadas e reorganizar toda uma rotina com a família toda em casa, de quarentena.

Como pediatra temo o primeiro pedido de um papel assinado por mim a dizer que confirmadamente a criança não tem COVID19 e pode ir à escola. Sabem o que isto significa? É que nem eu nem nenhum médico, nem o mais competente clinicamente, pode atestar com seriedade que aquela menina de 18 meses, simpática, mas ranhosa, com uma tosse de cacaracacá e que teve febre durante 2 dias e que até já passou, não possa ter COVID19. E sabem o que vai ter que ser feito? Pois…uma zaragatoa.

O que eu temo deste inverno não é o COVID19, não é a gripe, não é a doença grave.

O que eu temo é a corrida aos testes COVID19 e a histeria colectiva.


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