• Joana Martins

2020: O novo normal e 2021: O ano do absentismo


Este ano de 2020 está a ser uma absoluta e completa surpresa. A pandemia SARS-COV2 confronta-nos com o desconhecimento científico básico de um vírus completamente novo, mas sobretudo, mergulhou-nos no caos da desinformação e alarmismo. Como profissional de saúde, não sofri na pele o confinamento. Trabalho no centro de Lisboa e não deixo de referir a estranheza de ver, em dias sucessivos, a cidade permanentemente vazia e silenciosa. Não deixou de ser uma experiência única, de uma rara beleza e encanto. No entanto, parecia haver sempre este peso do medo. Um medo enorme que engoliu a sociedade inteira. Com a reabertura das creches e jardins infantis em Junho, os meus filhos voltaram à sua rotina. Sim, nesta fase, já estão há 3 meses na escola. O test drive das creches e infantários foi bem pensado: as crianças são pequenas, mas maioritariamente acima de 1 ano de idade e os pais são jovens e como tal, provavelmente saudáveis. Foi a estratégia de menor risco, mas compreendam, ainda assim com riscos associados. Seria expectável que em Setembro daríamos o passo seguinte: reabrir todas as escolas. E aqui sim, teremos o real impacto da transmissão do vírus na população pediátrica. O que sabemos até agora é que não há sítios seguros. Quando me perguntam se a escola é segura, respondo que é mais segura que o supermercado, a bomba de gasolina ou a farmácia. Isto porque todos os estudos parecem apontar para o facto de contágio ser sobretudo provocado por adultos. O que nos leva à decisão seguinte: tornar as escolas santuários com poucos adultos. Ou pelo menos apenas e só os estritamente necessários. O facto dos pais não poderem entrar na escola é obviamente um factor de grande stress, sobretudo para as crianças a fazerem adaptações a novos estabelecimentos escolares. Ninguém disse que esta grande experiência social seria fácil. Não está a ser. Outra questão extremamente importante é que a infecção por SARS-COV2 é praticamente indistinguível de uma gripe ou de uma bronquiolite numa criança com menos de 12 meses. Não existem sintomas específicos, pistas infalíveis, “truques” para identificar COVID19. O que nos deixa apenas e só com a possibilidade de realização dos testes. Para quem não foi ainda testado (que sorte!!!), o facto de se introduzir um cotonete gigante até à nuca, provocando-nos lágrimas e vómitos, é uma experiência única. E será que queremos que os nossos miúdos passem por isso? Por isso, para mim, o ano escolar de 2020-2021 será o ANO DO ABSENTISMO, com crianças febris a serem encaminhadas ciclicamente para o isolamento, que, em caso de suspeita de COVID19, será previsivelmente de 14 dias. Podemos olhar para isto de três formas: do ponto de vista da criança, do ponto de vista das entidades patronais e do ponto de vista dos pais. Para os bebés e crianças em idade pré-escolar, esta situação é relativamente sustentável, já que não existe um conteúdo programático e ao fim de 14 dias, poderão integrar novamente rotinas. Para as crianças em idade escolar e adolescentes, o período de isolamento vai corresponder a um período de telescola, com afazeres, aulas à distância e estudo desacompanhado. Para as entidades patronais vai ser um período de contante desafio. Equipas reduzidas, mudanças de última hora, teletrabalho quando possível, rastreios no ambiente de trabalho e papeis, muitos papeis…Comprovativos de incapacidade temporária, apoio à família, atestados e mais atestados. Para os pais vai ser o caos: ginástica permanente entre escola, trabalho e casa, sob a ameaça da chamada telefónica com a previsível notícia: “o seu filho tem febre” ou “um menino na sala do seu filho tem comprovadamente COVID19”. E que o que é que eu acho como pediatra? Como pediatra e médica assistente de muitas famílias, tenho aconselhado, caso seja possível, as crianças mais pequenas (sobretudo os bebés em fase de término de licença de parentalidade), a ficarem em casa ao cuidado de familiares. Nem sabem a ginásticas de turnos que isto exige, com pais, avós, tios e tias à mistura. Mas este aconselhamento não vem do medo da infecção pelo SARS-COV2 em si, vem pelo medo da desorganização e do stress que significa receber estas chamadas e reorganizar toda uma rotina com a família toda em casa, de quarentena. Como pediatra temo o primeiro pedido de um papel assinado por mim a dizer que confirmadamente a criança não tem COVID19 e pode ir à escola. Sabem o que isto significa? É que nem eu nem nenhum médico, nem o mais competente clinicamente, pode atestar com seriedade que aquela menina de 18 meses, simpática, mas ranhosa, com uma tosse de cacaracacá e que teve febre durante 2 dias e que até já passou, não possa ter COVID19. E sabem o que vai ter que ser feito? Pois…uma zaragatoa. O que eu temo deste inverno não é o COVID19, não é a gripe, não é a doença grave. O que eu temo é a corrida aos testes COVID19 e a histeria colectiva.

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